Transferência, transparência e vestígios
"A arte e a vida estabelecem uma relação cada vez mais estreita para mim, desde o arquivar das imagens até a última pincelada. Apenas os vestígios das minhas experiências é que se mostram nas minhas pinturas. Muitos dos símbolos e representações dessa produção ficam obscuros e muitas vezes secretos ao espectador. Cada significância pode e é agenciada de diferentes maneiras por ele, a pintura fala quando transfere essas relações e sentidos das imagens.
Estas familiaridades, de um modo geral, se estabelecem através de objetos, artefatos femininos, tais como sapatos, roupas, bordados, estampas e muitos outros elementos. Estas imagens compõem um mundo de referências, os objetos têm seu significado usual e prático substituído por livres associações que, a partir das formas libertas de sua funcionalidade, remetem mentalmente a outros objetos.
Seguindo essa proposta de releitura, busco através da colagem estruturar o projeto da pintura. Essa colagem reúne imagens de uma realidade cotidiana, que dificilmente estariam juntas em outra situação. Elas são como estratégias de afloramento e estilização, e não existe portanto, um desejo de interpretação que direciona para um certo e único lugar.
Talvez por isso seja tão necessário desconstruir, descontextualizar e deslocar essas imagens para o processo da pintura. Essa colagem é previamente planejada, vezes feita por montagens no computador e vezes como simples esboço no caderno de artista. Esta imagem pintada é realizada por camadas, transparências e sobreposições.
Tudo isso é permitido pela tinta acrílica, desde as suaves transparências da aguada a densas formas gráficas e planas.
São essas possibilidades que criam o meio em que as figuras se assentam, muitas vezes construído por aguadas ora transparentes, ora densas, são como paisagens ou ambientes de profundidade infinita. O primeiro plano formado pelas figuras humanas é construído com uma pincelada mais gráfica, já que a tinta acrílica não permite o degrade oferecido pela tinta a óleo. Num plano intermediário, entre as volumosas aguadas e as figuras humanas, surgem formas transferidas e repetidas pelo estêncil ou pela serigrafia.
Estas repetições se mostram fragmentadas, incompletas, quase que tensionadas pela ameaça de sua própria ausência, apagamentos e vestígios. Muitas vezes se destacam em inconstantes planos coloridos.
A pintura finalizada não é espelho da realidade, porque não quer ser confundida com o registro realista, porque é possível pensar uma realidade sem necessidade de representá-la.
O papel da imagem fotográfica para construção do arquivo-memória ou mesmo os arquivos de documentos, tornam-se imprescindíveis como parte do meu processo, pois as fotografias são as testemunhas de que existiu um presente naquilo que agora é ausente. Nestas bases, a fotografia tem em sua principal função a capacidade de transformar em documento aquilo que é efêmero. Talvez seja esse fio invisível que me liga a fotografia, e é aquilo definido por Barthes como o punctum: “O punctum de uma foto é esse acaso que, nela, me punge (mas também me mortifica, me fere).” (A câmara clara, 1984 p. 46)
O uso de imagens fotográficas como referência para a pintura, chama a atenção pelas possibilidades de expansão que adquirem e pela renovação de suas condições de recepção, por suas inusitadas apropriações e colagens visuais.
O objetivo da exposição é estabelecer um ambiente de sonhos, e percebendo relações entre as pinturas o espectador possa se transpor para a não realidade. Em ecos de um passado."
Gabriela Brasileiro e Mariana Parzewski

“Falar sobre pintura não tem nenhum sentido. À medida que se comunica algo com a linguagem, altera-se o comunicado. Constroem-se essas qualidades que podem ser faladas e destroem-se aquelas que não podem ser faladas, mas que são as mais importantes."
Gerhard Richter - Notas 1964-1965

Essa realidade que me escapa
"Gabriela realiza pinturas a partir de um referencial imagético que coleciona em uma pesquisa em publicações como jornais, revistas e internet, além de fotografias constituintes de seu álbum de família. Um processo no qual Gabriela desconstitui através da pintura a identidade e o contexto das imagens escolhidas e as recombinam para criar um universo particular. Um universo de relações fictícias, produzido por meio de uma pesquisa pictórica rica em cores, feita de aguadas, veladuras, e máscaras. Relações sombrias, estranhamentos múltiplos como os criados por David Lynch no cinema, um universo feminino anônimo, por vezes obscuro, como nas poesias de Clarice Lispector ou como no conto de Alice, que se perde em um mundo absurdo."
Alan Fontes
Artista plástico e mestrando em artes visuais na EBA /UFMG